Pensando no presente e no futuro da Shell, a gigante anglo-holandesa anunciou em seu relatório anual de atividades as principais diretrizes da companhia para os próximos anos. Estão no topo das prioridades a preferência nos negócios em águas profundas, a redução no endividamento da companhia e o compromisso com a transição para novas fontes de energia.

No planejamento estratégico de longo prazo, a Shell reconhece que o futuro da companhia dependerá de soluções com energias mais limpas. “Como parte de nosso esforço para ajudar no progresso da energia, ofereceremos aos clientes produtos e serviços de baixo carbono, como combustíveis com baixo teor de carbono para motoristas e energia de baixo carbono para residências e empresas”, afirmou o presidente da Shell, Charles O. Holliday. Na prática, isso significa que para atender à crescente demanda global de energia será necessário substituir o carvão por produtos de queima mais limpa, como o gás natural, e renováveis, como a eólica e a solar. Neste sentido, a expectativa da companhia é reduzir a pegada global de carbono em seus produtos em cerca de 20% até 2035 e 50% até 2050, além de investir entre US$ 1 bilhão ou US$ 2 bilhões por ano em Novas Energias até 2020.

No entanto, como lembra Holliday, “é improvável que a eletricidade substitua o petróleo ou o gás natural em algumas partes importantes da economia, como no transporte rodoviário pesado, na aviação e na navegação”. Por essa razão, embora os esforços na transição energética, o CEO da Shell conclui: “Petróleo e gás permanecerão no centro de nossos negócios por muitos anos”.

Um exemplo disso está no atual plano de negócios da empresa. Parte considerável dos investimentos planejados (57%) está concentrada no setor de exploração e produção.

Neste sentido, o Golfo do México e o Brasil têm uma posição de destaque, já que são os principais destinos de investimentos da Shell em águas profundas. Com relação ao Brasil, que responde por cerca de 20% das reservas totais de petróleo da Shell, a previsão é de investir até US$ 14 bilhões nos próximos sete anos, mas que podem aumentar, caso sejam feitas novas descobertas. “Se você olhar entre hoje e 2025, no nosso plano, já temos quase de US$ 1 a US$ 2 bilhões de investimentos previstos em águas profundas por ano. Se tivermos grandes descobertas, esse número poderá crescer”, afirmou Wael Sawan, vice-presidente global da divisão de Águas Profundas da Shell.

Presente em seis dos catorze blocos leiloados do pré-sal, incluindo os dois maiores campos de produção Lula e Sapinhoá, a anglo-holandesa é a segunda maior produtora de petróleo no Brasil, ficando atrás apenas da Petrobras. Em novembro, a companhia chegou a produzir mais de 400 mil barris de barris equivalentes de óleo e gás por dia (boed), segundo o boletim de produção da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Considerado um dos quatro principais países do mundo para as atividades do grupo, a Shell protagonizou, em 2015, a maior fusão do setor de petróleo na última década ao comprar sua rival BG Group. A BG era até então a principal parceira da Petrobras no campo de Lula, principal produtor do pré-sal da Bacia de Campos, detendo cerca de 25% do negócio. Além disso, a companhia britânica também era parceira da estatal brasileira em outras áreas relevantes como Sapinhoá, Lapa e Iara.

Em seguida, ao final de 2017, a Petrobras assinou com a Shell um acordo de colaboração mútua de longo prazo, com foco operacional, nos ativos nos quais atuam em parceria. Segundo o documento, o objetivo principal da parceria “é o compartilhamento de experiências e melhores práticas, visando redução de custos nas atividades de construção de poços, logística e segurança de aviação”.

Para a Shell, a parceria significa, entre outras coisas, acesso a uma parcela do conhecimento técnico acumulado pela Petrobras nas bacias do pré-sal. Uma oportunidade e tanto para a anglo-holandesa observar de perto como a líder mundial em tecnologia de perfuração em águas profundas atua no mercado. Embora compartilhe os riscos e apoie os investimentos da Petrobras no pré-sal, ficam dúvidas se tais aspectos são suficientes para a petrolífera brasileira conceda informações tão estratégicas de uma das áreas mais promissoras de exploração de petróleo dos próximos anos.

Independente da postura da Petrobras, a crescente atuação da Shell no Golfo do México e no Brasil, incluindo a aquisição bilionária da BG e as parcerias tecnológicas com a Petrobras, sugere que o futuro da petrolífera anglo-holandesa está nas águas profundas da América Latina.

*Fonte: Ineep

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