Publicado em diplomatique.org.br por William Nozaki

A energia produzida em alto mar tem sido um componente cada vez mais importante para a indústria mundial de petróleo e gás. Os recursos e projetos offshore têm se consolidado como uma das principais fronteiras de expansão da economia dos hidrocarbonetos neste início do século XXI, desaguando em uma importante transformação: o oceano Atlântico com suas costas americana e africana ingressam, pela primeira vez, como atores centrais na geopolítica e na geoeconômica do petróleo.

Imagem por Steve Jurvetson/cc

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o segmento de hidrocarbonetos offshore já representa cerca de 15% das reservas mundiais de petróleo e 45% das reservas mundiais de gás já descobertas. Além disso, as estimativas indicam que o petróleo em mar representa cerca de um terço do petróleo e dois terços do gás que ainda podem ser descobertos no futuro. O petróleo em águas profundas (com profundidade abaixo de 400 metros) e em águas ultraprofundas (com profundidade abaixo de 2.000 metros) já representa mais da metade dos recursos de óleo e gás descobertos nos últimos dez anos.

Esse cenário revela a centralidade do petróleo offshore para as próximas décadas. Há uma tendência global de que o mercado petrolífero passe a priorizar de forma mais intensa a prospecção e a produção em regiões cada vez mais distantes das costas e em profundidades cada vez maiores, o que impõe novos desafios tecnológicos, financeiros, logísticos e geopolíticos.

A exploração offshore teve início logo após a Segunda Guerra Mundial, quando a consolidação do petróleo como recurso natural estratégico impôs a corrida por novas descobertas. Em 1947, na costa da Louisiana nos Estados Unidos, foi perfurado o primeiro poço comercial de petróleo offshore a uma profundidade de 5 metros, com equipamentos móveis e distantes do alcance da vista nos portos em terra firme.

Desde então as operadoras avançaram cada vez mais no desbravamento dessa nova fronteira. Após as crises do petróleo na década de 1970, esse segmento se transformou numa área de grande oportunidade econômica, e o seu auge até aqui se encontra precisamente na descoberta das províncias brasileiras do pré-sal nos anos 2000 e seus reservatórios a cerca de 300 km da costa e com até 7 km de profundidade.

Trata-se, no entanto, de um segmento relativamente concentrado, considerando águas rasas, profundas e ultraprofundas, mais de 25% dos suprimentos de óleo e gás têm sido produzidos, principalmente, no Mar do Norte, no Mar Cáspio, no Oriente Médio, no Golfo do México, na costa da África e na costa do Brasil.

No entanto, uma mudança merece destaque: cerca de 40% da produção offshore provém de águas que estão, por exemplo, em regiões como Reino Unido e Noruega. Nesses casos, a produção decrescente tem obrigado os países e as empresas a se voltarem mais aceleradamente para alternativas como a aposta em energia eólica offshore, em muitos casos as antigas plataformas têm sido reutilizadas e servido como base de instalação para grandes cataventos. Se, por um lado, essa dinâmica abre possiblidades para a transição da matriz energética, por outro lado, ela em certa medida subtrai poder desses players pioneiros na geopolítica do petróleo.

No mesmo compasso, cerca de 60% da produção offshore é oriunda de águas profundas situadas em regiões como, por exemplo, Estados Unidos, Brasil, Angola e Nigéria, além de Senegal e Mauritânia no continente africano e Guiana e Suriname no continente americano.

Nos Estados Unidos, a produção offshore foi interditada e desacelerada depois que um acidente na Califórnia nos anos 1970 levou à introdução de uma regulamentação rigorosa para esse tipo de atividade. No entanto, em 2018, o governo norte-americano flexibilizou a possibilidade de exploração em praticamente todas as águas costeiras, dando acesso a arrendamentos na Califórnia e no Ártico. No Brasil, a descoberta do pré-sal tem se mostrado uma atividade economicamente promissora e tecnologicamente vitoriosa, batendo recordes de produção e qualidade a custos cada vez menores. Há projeções que indicam a possibilidade de o país mais que dobrar sua capacidade de produção até 2040. Em Angola e na Nigéria, em que pese os níveis de atividade terem sofrido redução desde 2014 (em função de incertezas políticas e contratuais), novos pacotes de investimento já começam a ser sinalizados a partir de 2018. Na Guiana e no Suriname, novos projetos planejados e iniciados apontam para um pico de produção que deve começar em 2020.

Vale ainda destacar que o México também tem se apresentado como fonte importante de expansão das atividades offshore. As rodadas de licitações realizadas a partir de 2013 também vieram acompanhadas de novos projetos e espera-se que a produção em águas profundas comece por volta de 2025.

Por todos esses motivos torna-se evidente a centralidade do Atlântico – americano e africano – na nova dinâmica global do petróleo ao longo das próximas décadas. O mesmo mar por onde se deu a expansão do capitalismo ressurge como fonte de energia para a acumulação neste início de século XXI.

*Fonte: Ineep

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